sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Boas conversas que se pode ter sentado sobre cascos

Na cidade ninguém queria mais saber dele não. Ainda era o tempo em que as pessoas apenas não se dirigiam a gente naquela condição, mas foi o suficiente para que ele se dedicasse ao ostracismo entre as tartarugas da pedreira abandonada, onde morou por muitos anos.
Logo que chegou, foi recebido com festa; os moradores da pedreira, que há décadas não viam um ser humano, uivaram a noite toda, alegres de terem com quem conversar. Gostou muito delas. As tartarugas lhe mordiscavam a carne e ele sentia cócegas e vontade de nunca mais dormir. Sentava-se sobre o dorso de uma ou outra, não como quem cavalga, mas como quem espera numa sala de estar, tomando chá e contando a última de sua tia distante incapaz de evitar escândalos. Esses animais, percebeu, oferecem vantajoso conforto de estarem sempre paradoes e em movimento ao mesmo tempo, tudo tão estável e equilibrado quanto o mundo, mais até, porque sobre os seus cascos não ocorrem, como na crosta da terra, vulcões e terremotos.
Os répteis chamavam-se Hermes Marana, Zargot, Cecília e outras coisas assim. Cantavam muito, em seus uivos. Sua canção favorita foi ensinada por Orongo, que aprendeu com as baleias quando morava no mar. O homem considerava o som insuportável, mas preferia dizer a elas que estava gostando, o que, vendo-se bem, também não chega a ser uma mentira.
Um dia amanheceu com febre e muita dor. Quando pediu socorro, notou que as tartarugas não dispunham da devida organização para atendê-lo. Então disse para Orongo "você que é o mais sabido, será meu médico, para me curar"; "e como eu serei um médico?". Explicou. Orongo deveria dizer e escrever coisas que ele não entendesse muito bem para que alguém lhe desse um remédio. Quem? Cecília seria a farmacêutica. Mas onde fica a farmácia? "Do outro lado da rua". Decidiu-se que Zargot seria a rua, Meredith a avenida que cruzava lá em cima, Hermes o mendigo de frente para o prédio abandonado.
Quando viu, as tartarugas já tinham eleito Fillipe presidente e planejavam o golpe levante militar que instituiria o corrente escritório interino. Foi muito surpreendente quando elas decidiram proibir o uivo em público. Não pareciam mais tartarugas. Orongo finalmente tirou seu diploma médico e diagnosticou o homem. Insanidade pérfida e incurável, exílio! Deixe o País da Pedreira imediatamente ou sofra as conseqüências.
As tartarugas formaram um corredor e ladravam e xingavam para que dirigisse-se ao ostracismo; segundo imposto em sua vida. Para onde o homem iria agora? Recusava-se ao oeste, onde o sol poente projetaria sua sombra para que as tartarugas pisoteassem e se mijassem sobre sua imagem. Do leste tinha vindo; ao sul e ao norte não imaginava conseguir vencer as escarpadas da pedreira.
Se não os homens nem as tartarugas, quem ainda mais morderia sua carne? As tartarugas cercaram-no como lobos. Orongo rugiu. Rugiu de novo. Talvez fosse melhor assim. Antes a execução que o ostracismo, não? Depois do silêncio,puseram-se todos às gargalhadas - há muito que as tartarugas observam os homens com complacência hmorada. Puseram fim a farsa toda.

O homem não sabia se as tartarugas eram a compreensão que não recebera de seus pares o os pares que não recebera de sua compreensão, mas continuou a habitar a pedreira, se não feliz, bem razoavelmente satisfeito, até morrer bem velhinho do que deveria ser uma tendinite.

Um comentário:

Clara disse...

aqui tb falta crase